Uma sequência intensa de notas em tons menores vinha da sala de estar, transbordando sentimentos que eram quase palpáveis; era possível senti-los escorrendo pelo corpo, como chuva forte caindo do céu em pingos pesados que rapidamente molham o corpo todo.
Lá estava ela... olhos fechados, janela aberta, sentindo o vento gelado de Junho acariciar sua face enquanto, como mágica, seus dedos conversavam com as teclas do piano, fazendo seus sentimentos ecoarem pela casa, reverberarem pelos cantos, penetrarem os estofados.
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A princípio tocava com delicadeza, com a timidez de alguém que começa a dizer a um estranho como se sente, o que já viveu. Aos poucos, a intimidade com o piano foi surgindo, as notas ficando mais altas e fortes. Sentimentos mais densos. Seu corpo todo movimentava-se na melodia de Beethoven's Silence, tocada com toda a melancolia que ela guardava dentro de si. Durante as pausas, prendia a respiração, retesando seu corpo. Quando voltava a tocar, sentia as lágrimas pesadas caírem de seus olhos, escorregarem por seu rosto e caírem nas teclas de seu confidente, misturando-se às pontas de seus dedos longos e frios, com unhas roídas.
Ao sentir um ínfimo raio de Sol aparecer e tocar sua pele, calmamente levantou-se, fechou o piano, respirou fundo e caminhou em direção ao quarto. Sua tristeza, suas confissões, suas notas melancólicas, suas dores pertencem somente à madrugada; sua Caixa de Pandora, que durante o dia deve permanecer fechada para que sua máscara lhe caiba e a vida lhe pareça menos amarga.
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