segunda-feira, 9 de abril de 2018

Crônicas do Cotidiano XXIII - "Observations broken into lines"

A perna chacoalha, o cenho franze, a raiva chega a galope, a adrenalina é descarregada, o coração abre a janela e a decepção dá o ar da graça, sorri, e ao espreguiçar, a tristeza vem em tsunami.
Silêncio.


Tu, tu, tu, tu... A ligação sempre cai. O sinal sempre falha. O fio não alcança. A Torre derrete.


O guarda-roupa espera terminar de ser organizado.


A caneca continua quebrada.


O urso continua rasgado.


O relógio continua andando.


A vida lateja, inflamada e dolorida, tal qual a laceração na derme e epiderme.


O vômito de palavras nem sempre traduz fidedignamente a verborragia eloquente de tantos sentimentos concomitantes.


Os olhos pesam. O cigarro chama. O corpo não obedece. A cabeça é refém do coração. O coração encontra-se pior que rua em final de feira.


A vida não pára.
Nem fodendo. Nem no celibato.
Ela não pára

sexta-feira, 2 de março de 2018

Crônicas do Cotidiano XXII - Sobre a boca que dorme.

     A boca dormente, as palavras tentando encontrar seus lugares nas frases, os sentimentos borbulhando e digladiando-se, tentando em vão sair de dentro do peito.

     Gostaria que cada vez que pressiono as teclas, elas pudessem fazer com que essa salada de sentimentos e pensamentos – que, em analogia, seria como uma salada com alface, cebola, feijão, macarrão, molho de mostarda, leite condensado, uva passa, alho, queijo ralado, granulado de chocolate, rúcula, maionese, couve, Nutella, banana e manteiga - pudesse sair aqui de dentro e me dar pelo menos um pouquinho de paz e sossego no coração e na cabeça. 

     Hoje, na aula, ouvi uma frase que fez muito sentido; algo como "substituir a culpa pela responsabilidade traz a aceitação e consequentemente o alívio de se livrar da culpa". Puta que pariu! E quando não consigo encontrar onde está a minha responsabilidade na desordem? E quando a desordem é filha de um outro que simplesmente a abortou no meio da rua, com placenta e tudo, e foi embora, deixando ecoar no vento que eu sou dramática por me impressionar e incomodar com a cena e me recolher dentro da minha ostra? 

     Aí vem a indignação diante da qualificação atribuída pelo outro, a angústia de gritar para que um surdo ouça, acenar para um cego, tentar explicar a quem não tem disposição de ouvir nem compreender. É como se tentasse colocar meu pé 39 em um sapato 35. Exasperante! Não importa o quanto eu grite que dói e não cabe, sempre é drama e manipulação. Quando na verdade, só dói, porque meu pé não cabe naquele sapato e não porque quero outro mais caro ou porque minhas unhas ficarão borradas.



     O grito de dor é sempre um pedido de ajuda, e é tenebroso quando além de não ser escutado, é classificado como algo supérfluo e fútil ou pior: como manipulação. Mas creio que eu tenha criado o terreno para que o grito seja visto dessa forma, pois aprendi a me calar quando algo dói, incomoda, sai de lugar, cai no dedinho do pé. Aprendi a guardar dentro da ostra, porque as vezes nas quais tentei compartilhar, sempre saiu daqui como o compartilhamento de uma dor, mas chegou como frescura e atitudes de gente mimada; o maldito telefone sem fio, feito com caixinha vazia de Yakult e barbante, que deixa informações perdidas no meio do caminho e distorce as palavras. Me vi tendo que optar por tentar desfazer todo e qualquer mal-entendido causado pelas falhas na comunicação, ou simplesmente me calar, e foi pelo que optei, como quando alguém em surto psicótico é dopado, ao invés de ter a oportunidade de falar sobre seus delírios a fim de que sejam compreendidos e contextualizados; tal qual a do louco, minha credibilidade, minhas falas, meus porquês sempre foram anulados. Talvez, essa mania de esmiuçar o que se passa aqui dentro, saia daqui como uma maneira de manter por perto quem me importa, de explicar o que se passa e dizer que nem sempre ajo por maldade ou qualquer outra motivação que possa machucar, mas chega como manipulação, como uma espécie de preparação de um terreno para que um grande golpe seja bem sucedido; e não importa o quanto eu tente, sempre é em vão, sempre os significados das falas se perdem no meio do caminho. 


Talvez seja hora de calar.

A boca dorme e a cabeça acorda.


A boca dorme e o coração chora.


A boca dorme e o ser - existir - dói.


A boca dorme.

Talvez seja hora de calar.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Crônicas do Cotidiano XXI - Sobre estar cansada

“Se eu não tenho o que quero, me sinto só e triste. E se eu tenho o que eu quero, tenho certeza de que irei perder. E a espera é insuportável” essa madrugada, assistindo Flores Raras e pensando em tudo o que aconteceu na última semana, essa frase da Bishop me descreveu perfeitamente. E eu ainda acrescentaria que acabo fazendo tudo o que estiver ao meu alcance para antecipar a perda e findar a espera.
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Escolhi esse filme porque me identifico com a sensação de não-pertencimento a alguém e/ou a algum lugar que a Bishop tem. Essa coisa imensa, que é tão grande e tão vazia que não cabe dentro de si e acaba escorregando para uma folha de papel, e, no caso dela, para um copo com whisky. No meu, para comprimidos que me colocam para dormir e me levam a uma temporária não-existência, que acalma a aflição de me sentir solta e vazia, feito um daqueles balões de hélio, que têm aquela forma extravagante, brilhante e chamativa, mas dentro de si, têm um vazio tão grande que chegam a ser mais leves do que a gravidade e voam alto até explodirem e, definitivamente, deixarem de existir e logo virem outros para o substituírem.
É um vazio tão meu e tão repleto de monstros enjaulados e fortemente acorrentados a bolas de ferro, que me faltam palavras para transpor a sensação à compreensão. É um esforço imenso para manter todos devidamente enjaulados; às vezes, dá a impressão de que as jaulas cederão e todos serão libertos, para me consumirem e me fazerem explodir e simplesmente deixar de existir. Antes, me causavam uma dor profunda. Hoje, me cansam profundamente, me levam à exaustão diante de gatilhos ínfimos, pois são anos tentando mantê-los contidos e longe de mim de das pessoas pelas quais mais sinto carinho. Ainda assim, vez ou outra, escapam e causam estragos extremamente dolorosos. Me sinto impotente diante de mim mesma.
Sempre tento fazer vista-grossa para esse esforço diário, mas há momentos em que simplesmente esmoreço diante de mim mesma, derreto na frente do espelho e meu reflexo permanece impávido, me observando do alto de seus 1,73m, balançando a cabeça em sinal de reprovação. Nesse momento, sinto vontade de ser absorvida pelo chão, desaparecer e deixar apenas que meu reflexo exista, pois ele é mais forte que eu; sobrevive dentro do vidro, não pode ser tocado, pois o vidro o protege, não sofre nem sente nada. É fruto da refração da minha forma externa, sem todo o tormento e cansaço internos.
Já tentei e quis muito tirar minha vida, mas a impressão que tenho é a de que continuarei vivendo nessa trincheira mesmo depois de não ter mais domínio sobre meu corpo físico; é maior, vai além. Sinto que continuarei sendo acompanhada por cada uma das jaulas pesadas, enferrujadas e que porcamente detêm esses inquilinos indesejados que nasceram comigo e me acompanham.
Minha sensação, hoje, é de cansaço. Mas não aquele cansaço que faz sentir vontade de desistir. Cansaço daqueles de quando fazemos movimentos e esforços repetitivos, cansaço oriundo da repetição e de se ter atingido o limite e ainda assim continuar sendo insuficiente. Cansaço de saber que tenho apenas 24 anos e uma vida pela frente para continuar correndo entre jaulas, verificando fechaduras, trocando grades e correntes, afim de manter esses monstros detidos e contidos. Talvez, não seja “cansaço” a palavra, mas sim uma imensa desilusão diante da impotência.

Vai ano, vem ano e sou sempre a mesma pessoa suada e descabelada, a mesma carcereira incapaz de controlar os detentos, por maior que seja o esforço. Trabalhando 24h, sem férias, sem folga, sem descanso.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Crônicas do Cotidiano XX - Os 4 capítulos e o reinício de um ciclo


“É fevereiro (fevereiro!), tem carnaval (tem carnaval!)”

Primeiro, te fiz crer que Deus havia lembrado de ti ao me colocar em teu caminho. Fui frio na barriga, noites em claro trocando mensagens, o sorriso bobo diante da mensagem às 5 da manhã, o flerte gostoso, que foi, aos poucos, mostrando as coisas boas, tanto daí, quanto de cá. Fui a sakura florida na saída do metrô Liberdade, que confere cor, leveza e encanto aos corações apressados e aos passos rápidos no concreto da calçada, que muitas vezes massacram um broto de flor em alguma rachadura sem sequer perceber.



“Tipo passarinhos, soltos, a voar, dispostos a achar um ninho”

O outono chegou, o vento apertou e algumas flores foram embora, deixando alguns galhos mais secos à mostra. Tudo bem, afinal, sou humano e você já esperava tais partes não tão floridas, coloridas e cheirosas e me senti à vontade para compartilhar algumas insatisfações, alguns traumas, algumas partes desagradáveis; me senti à vontade para pedir apoio quando o All Star machucou o calcanhar. Mas ainda havia aquele encanto, de perceber que não há perfeição. O rosa das flores ainda sobrepunha o marrom dos os galhos secos.



“Ele também é humano”

Junto com o vento frio do inverno, veio o céu nublado, a garoa e as flores foram todas embora. Os transeuntes entram e saem do metrô, embaixo de seus guarda chuvas, esbarrando uns nos outros, pisando em poças d’água e xingando por terem molhado seus sapatos. A sakura perde seu brilho e passa a ser só mais um amontoado de galhos secos que ganham destaque no contraste com o céu nublado. Algumas gotas de chuva fazem morada em minha barba. A beleza escorre pelo meio fio e se perde na primeira boca de lobo, levando algumas bitucas e restos de papeis de bala consigo.



“Não quero problemas”

Isso não se referia somente a relações problemáticas, mas a problemas cotidianos, àquelas casquinhas de feridas antigas e ainda doloridas, aos arranhões do dia a dia, aos incômodos, a qualquer coisa que pudesse caber na caixinha de ‘problemas’ – e os meus, óbvio, sempre eram menores, não mereciam atenção, pois eu reclamava da angústia que sinto quando tiro a barba e você sempre me lembrava das pessoas na hemodiálise. Nunca vi tanta necessidade nem urgência em seguir à risca o indicado pelo pronome “meu”, ao falar de ‘meus’ problemas. Sempre pensei que quando a gente procura alguém para contar o que nos aflige, é porque confiamos e queremos nos sentir acolhidos. Mas não com você, que faz sempre questão de me empurrar do ninho e manda aquele “voa logo e não me incomoda piando, que tenho mais coisas na vida a serem feitas”. Era primavera. O piado era de alegria por ter tantas flores ao redor de si e compreender que mesmo aquelas flores que não eram tão perfeitas, também tinham sua beleza e também tinham seu perfume.



“O sol, céu azul e calor me fazem agradecer a vida”

Ahhhh, o verão... A areia fina entre os dedos dos pés, o barulho do mar, o coração feliz, as diferentes tonalidades de pele à mostra, a impressão de que tudo havia acalmado e a resignação diante de adaptações, afinal, ninguém tem obrigação de me acolher e me compreender; se estou mal – quem ESTOU? – é uma responsabilidade única e exclusivamente MINHA; para que e por que procurar dividir com a pessoa que um dia me disse que eu havia sido o motivo de seu sorriso bobo e que não me queria somente quando eu estivesse bem, mesmo que desejasse que eu estivesse sempre bem?
No verão, a gente sorri com o choro entalado, concorda com vontade de gritar o quanto realmente discorda, agradece a vida mesmo sentindo vontade de mandar Deus se foder. No verão, a gente bate o dedinho na quina do móvel de ébano e sorri ao invés de xingar até a terceira geração do marceneiro. No verão, a gente encarna a persona da Amélia, sorri e acena, pede perdão antes de errar, muda a anatomia da garganta para poder caber o nó sem fazer chorar. No verão, tudo é lindo; seja por estarmos apaixonados, lendo e ouvindo aquelas frases que nos fazem sentir o homem mais especial do mundo, seja porque nos deixamos cativar pela raposa no verão passado, seja por termos aprendido a amar nossa rosa e todos os seus espinhos.



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domingo, 2 de julho de 2017

Crônicas do Cotidiano XIX - Redefinindo Configuraçoes

Depois que minha Mel me deu adeus, atribuí nova importância aos fatos da minha vida, às relações, ao tempo e à vida.
O que é um ego ferido diante de um coração dilacerado? Nada.
O que é uma relação de mão única? Pura perda de tempo.
O que significa um abraço? O coração do outro batendo junto ao meu, dividindo a dor ou a alegria. 
Quem são amigos? Aqueles que te fazem gargalhar no segundo dia mais doloroso da sua vida.
O que é o ciúme, diante do verdadeiro amor? Pffff....

Precisei dessa perda para poder compreender que a vida, as relações e os sentimentos são muito maiores do que sempre enxerguei; para compreender que uma migalha será sempre uma migalha, pertencente ao chão e hóspede da sola do sapato, que também a destrói; que amigos são aqueles que, mesmo nesse frio de 11°C de Sampa, conseguem me fazer sentir o coração quentinho, seguro e aconchegado; que o amor sempre vence o medo e os traumas; que o carinho, às vezes, vem de onde menos se espera; que a dor é opcional, pois uma perda pode ser vista como libertação.

A vida é rica e preciosa demais para ser desperdiçada com coisas e pessoas pequenas.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Schmutzige Tänzer

Bar à meia luz, fumaça de cigarro, cheiro de bebida barata e mesas de madeira, meio úmidas, acompanhadas por cadeiras igualmente úmidas e velhas, compõem o cenário do show.
Todas as luzes são apagadas e, após três segundos, somente um foco de luz amarelada surge em cima do balcão imundo e engordurado, repleto de marcas de copos. Dali, aparece uma sapatilha, rota e suja, com o gesso à mostra. Ao fundo, Sugarplum Fairy tocando no gramofone empoeirado.
Ela sobe naquele balcão e dança. Dança como se fosse a prima ballerina do Bolshoi. Ela sente-se assim.
Seus cabelos estão desgrenhados, caindo do coque, escorregando entre os olhos e grudando em sua pele oleosa, entrecortando seu olhar melancólico, cor de esmeralda, com cílios imensos e rímel vagabundo passado de qualquer jeito, esfarelando.
Em seu pescoço, é possível observar a jugular pulsando. Sua boca está seca e rachada.
Lágrimas misturam-se à face oleosa e somem nas rachaduras de seus lábios.
Sua dança é lenta, dolorosa, árdua. Feito as músicas de Maysa.
Em um momento de ilusória alegria, durante seus fouettés, sente algo em suas pernas. Quente. Espesso. Não se preocupa em saber do que se trata, pois sua sensação de plenitude não a permite desviar o foco.
Uma mão a toca na panturrilha. Imediatamente, ela para.
Mãos grandes, dedos finos, unhas compridas, arredondadas e vermelhas. Toque carinhoso.
            - Desça. – Diz aquela mulher com chapéu preto e cachos dourados que vão até a cintura.
Ela desce, cabisbaixa, esboçando um sorriso, com o canto da boca trêmulo e sem fazer contato visual – pois não?
            - Vamos. – Cochicha, a envolve em um sobretudo preto, abraçando-a por cima dos ombros e andando em direção à porta, com passos largos, do alto de um Louboutin de 15cm.
Nesse momento, ela olha para trás e percebe o rastro de sangue atrás de si e os risos de escárnio que foram silenciados pela eloquência e entrega dela à dança.



Sim, ela estava indo embora. Mas havia deixado, permanentemente, várias marcas de si naquele lugar tão imundo quanto os cantos mais reservados de sua alma, quanto o sangue inútil que seu corpo, mais uma vez, expulsou, cumprindo seu ciclo.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Crônicas do Cotidiano XVII - Massacre

Para tudo, uma dieta, um preconceito – ou devo dizer opinião? -, uma cartilha comportamental, uma ofensinha, uma olhada torta, uma piadinha de escárnio. Parece que quanto mais a espécie “evolui”, mais retorna à selvageria. Mãe pegando faca para filha que, numa brincadeira, diz ser homossexual. Funcionários CLT aclamando governo neoliberal. Estudantes tendo que ocupar suas escolas para terem garantido o direito ao ensino. Abaixo assinados pedindo o fim da morte de animais em testes de produtos de beleza. Carros estacionados em vagas para deficientes. Taxas altíssimas de suicídio. O dólar alto choca mais do que famílias sem comida na mesa. Mulheres hostilizadas e mortas a cada minuto, de formas inimaginavelmente violenta. Crianças e adolescentes mortos pelo crime vistos como lixo que saiu do meio do caminho. Transexuais apedrejadas e mortas, porque na sociedade, “viado não tem vez”. Polícia militar cegando e aleijando cidadãs e cidadãos deliberadamente – e sendo elogiada pelos (de)feitos.

Meio a uma verdadeira diarreia de falsos moralismos, vidas vão se perdendo, dignidade vai sendo dissolvida pelo ácido da engrenagem capitalista, ter opinião virou sinônimo de manifestar descaradamente os tipos mais nocivos – e nojentos – de preconceito.

Rivotril, Sertralina, Fluoxetina, Dizepam, Bromazepam, as balinhas mágicas para auxiliar no controle às dores da alma que não podem ser sanadas, porque fazer terapia – e se permitir simplesmente sentir - AINDA é coisa de louco e descer de cima do muro é um absurdo, girar no sentido contrário é massacrante demais – falar mal de quem o faz e usufruir dos benefícios da coragem destes ainda é mais fácil. Isso sem mencionar a famigerada Ritalina, a droga para “adultificar” as crianças, a droga do bom comportamento, da submissão, da roupa limpa, do silêncio e ordem em casa, da anestesia da falta que a família faz; depois de tanta luta para que a infância fosse compreendida como uma fase do desenvolvimento humano, junto ao capitalismo, vem a necessidade de ter mini adultos em casa, que não demandem tempo nem paciência, pois o tempo urge e é preciso “correr atrás”, porque no futuro, os pequenos, já crescidos, agradecerão a qualidade – financeira -  de vida que lhes foi proporcionada, mesmo que para isso tivessem a infância massacrada.

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Os sentimentos só são belos nos posts no Facebook, nas músicas e nos filmes, porque na vida real, o que conta é a capacidade de ser indiferente, obediente e disforme – para poder assumir a forma que for mais conveniente e trouxer mais lucro.

Na selva de concreto, cada vez há menos lugar para aquilo que nos torna humanos. Aquela máxima de Nietzsche “torna-te quem tu és”, foi substituída por “torna-te quem for te dar maior lucro e poder”, o que é imensamente triste, porque forma uma sociedade de mentira, pré-fabricada, que não aceita o diferente, não lida com emoções nem sentimentos, ignora as subjetividades. O ser humano conseguiu criar uma sociedade que agride a si mesmo, infelizmente. Foram criados conceitos universais e cristalizados de certo e errado, fazendo com que todos entrassem numa briga insana e eterna para serem “a pessoa certa, no local e hora certos, para a função certa”. Não ser a pessoa “certa”, que está no local e hora “certos” não é errado! É justamente isso que nos faz humanos!

Não sinta - racionalize. Não pense - reproduza. Não aja – obedeça.



segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Sobre ser responsável pelo que cativou

18:30. Céu nublado, vento frio, forte e uma chuva que ameaçava engrossar e desistia – assim como ela, sempre que se sentia pressionada, fosse pela sociedade como um todo ou por suas próprias paranoias cuidadosamente criadas e cuidadas.

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- Oi – atendeu o telefone com um sorriso terno, sentada no banheiro, encarando a parede preta com a placa “Sorria, você está sendo filmado!” - cujo nome, naquele momento, deveria ser "Sorria, pois um dos maiores motivos do teu riso acaba de chegar!"
Do outro lado, aquela voz. Aquela... a que sempre traz consigo calma, segurança, ares de lar, de cais, de segurança. Aquela voz que há tanto tempo não se ouvia e que chegou como música aos ouvidos, composta em tom menor.
- Oi. Como você está? – “Como estou? Puta merda, não sei nem como cheguei à faculdade hoje cedo!”
- Estou bem, e você? – “Eu sei que não está tudo bem com você, sei que não posso fazer absolutamente nada concreto para que fique tudo bem, então cá estão meus ouvidos e meu coração, abertos, teus.”

Depois de algum tempo, de confissões, desabafos e uma vontade absurda de simplesmente ficar abraçada, em silêncio, sentindo apenas as batidas do coração, veio a conclusão de que não importa quanto tempo passe, quais rumos a vida tome nem o quão bagunçada esteja, sempre haverá aquele porto seguro, aquele lar, aquele ninho quentinho e aconchegante, que mesmo longe, cuida, acolhe e é capaz de sanar quaisquer dores e angústias, simplesmente pelo fato de existir, de ser.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Estátua

Fria, de mármore, feição impassível, estática. Não respira, não pisca, não se move, não erra nem acerta, não vive! Absorveu cada pancada dada enquanto esculpida e se trancou dentro do mármore e de sua frieza.
Observa tudo, percebe cada detalhe mas permanece em silêncio.
Sente, absorve, memoriza. Não se move.
Tem olhos cegos (física e emocionalmente), orelhas que não escutam, pele que não sente (só retribui afeto com frieza), nariz incapaz de sentir qualquer tipo de aroma, boca incapaz de proferir qualquer vocábulo (muito menos retribuir o toque de outra boca).
Reverbera com todo seu corpo cada palavra dita ao seu redor, se esconde ao mesmo tempo em que mostra sua superfície – lisa e fria - a quem quiser ver e até tocar.

Mesmo rodeada, admirada e cobiçada, vive a mais fodida genuína de todas as solidões: aquela pela qual optou.
Não aceita aquilo que oferece. Interpreta como maus tratos o que oferece como proteção.
É, realmente, uma estátua: desprovida de cérebro e de coração. Apenas uma imagem semelhante à de um ser humano, porém sem coração nem cérebro, incapaz de sentir e processar. Apenas existe porque foi criada, esculpida pelas cobras na cabeça de uma Medusa de alma atormentada, perdida e barulhenta - com a qual, vale dizer, identificou-se um dia.
Filha do sentimento distorcido e incapaz de se mover em direção à versão pura de todo o sentimento que motivou sua criação.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Crônicas do Cotidiano XVII - Sobre as "cascas" da vida

De um tempo para cá, o Facebook passou a mostrar publicações passadas, de um ano, dois atrás e é engraçado, porque estas publicações mais antigas trazem os mais diversos tipos de sentimentos e emoções, da vergonha à mais pura saudade. Sinto, desde a vontade de simplesmente ignorar, olhar para cima e agradecer pelas mudanças que o tempo trouxe consigo, à vontade de voltar naquele dia específico e reviver situações bastante específicas, minutos, até mesmo aqueles segundos de duração de um sorriso ou de um abraço.
É engraçado como o tempo passa sem que possamos perceber. Sempre que topamos em alguma lembrança, percebemos a velocidade dele, percebemos o quão efêmeras são as situações, as relações, aqueles instantes preciosos que passam e deixam pequenas (grandes) marcas no coração. Fica tão claro o amadurecimento, que chega a assustar.
Me peguei pensando: daqui a um ano, quando o Facebook me mostrar as lembranças do dia de hoje, será que sentirei saudade, vontade de voltar (como senti hoje), ou será que darei graças a Deus pelo passar do tempo?

Pensando aqui com meus botões, não sei até que ponto foi bom ter aprendido a lição de viver intensamente o hoje, me entregar ao momento, ao presente, aos instantes preciosos que ficam cristalizados no coração. Aprendi, mas não sei lidar. Sou péssima em lidar com meus próprios sentimentos, o que é absurdamente contraditório, já que os sentimentos dos outros aparecem para mim como uma planilha do Excel, totalmente claros e organizados. Também não sei lidar com o produto de ter aprendido a viver somente a minha idade e tudo o que vem com ela. Sei sentir, mas não sei o que fazer com o sentir, em si. Mas aí, lembro do meu querido Kant, dizendo que a gente nunca vai conhecer a essência das coisas em si, uma vez que não conseguimos dominar nossos instintos (que nos permitiria este acesso à essência das coisas em si, à verdade) e que meus sentimentos são exatamente o produto desta falta de controle dos instintos, que acaba me cegando.

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Apesar de todas essas angústias, percebi que aquela armadura emocional que a maioria das pessoas vão criando no coração com o passar do tempo, também está chegando por aqui. O silêncio diante de situações que, há alguns anos, me fariam gritar meu ponto de vista (hoje, são reflexões silenciosas. No máximo, um texto.), as indiretinhas amorosas (que hoje, em sua maioria, são caladas, abafadas e atropeladas pela praticidade), os desabafos (que hoje ficam salvos numa pasta no computador).
Ainda atropelo as coisas, me perco entre sentimentos e razão, mas consigo me enxergar um pouco mais racional, por incrível que pareça, e sempre critiquei quem permitiu que o tempo criasse esta espécie de “casca” no coração e cá estou eu, usufruindo da proteção das primeiras camadas dela, me permitindo ficar imersa, protegida, no escuro e no silêncio que esta casca traz, nessa espécie de “útero” que a vida vai criando aos poucos e que tendemos a permanecer deitadas, encolhidinhas, aconchegadas entre lembranças doces e vergonhas, entre sonhos e cutucões da realidade, entre conquistas e frustrações.
Cada vez menos pessoas passam a cruzar essas cascas, o silêncio e a reflexão vão aumentando, a tolerância à dor tende a aumentar, o silêncio e a solidão passam a ser os melhores analgésicos, o travesseiro se torna o maior e melhor confidente e o sorriso no rosto no dia seguinte passa a ser presença obrigatória – dá uma preguiça imensa de dividir com as pessoas o que se passa aqui dentro, ficar “esticando chiclete”, revivendo e cutucando aquilo que machuca e incomoda.

Por ora, ainda desejo ter alguém que esteja sempre dentro dessas cascas, de mãos dadas comigo e de peito igualmente aberto, mas sinto, cada vez mais, a cada frustração, as cascas engrossando e diminuindo a possibilidade de que alguém, além das duas ou três pessoas que entram e saem quando querem, poder entrar e sair daqui. 

domingo, 5 de junho de 2016

Crônicas do Cotidiano XVI - Sobre Segredos

E lá estavam todas aquelas letras distribuídas harmonicamente no papel meio amassado e com franjas, em cima do vidro – impecável, vale salientar – do criado mudo. Fiz questão de deixar um beijo de batom naquele vidro que parecia nunca ter conhecido qualquer tipo de mancha ou de sujeira...
 
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É leve, é belo e é doce. Também é bruto e encantador.
Quando não vejo mais beleza à minha volta e a vida meio que perde o sentido, basta lembrar do seu abraço apertado e daquele sorriso lindo, do seu brilho nos olhos quando me vê; volto a me sentir especial, importante, única e querida, amada.
É isso: você me faz sentir amada. Muito amada. Mesmo com todos os meus defeitos; você não os julga nem cobra que eu me livre deles, você convive com todos eles e me mostra que também posso aprender a conviver com eles.
Dizem que quando falo de você, meus olhos brilham. Creio que além dos olhos, minha alma também brilhe.
Você não precisa estar ao meu lado para me fazer sentir a pessoa mais especial do mundo. Aliás, distância simplesmente não interfere no meu sentimento.
Foi com você que descobri que palavras nem sempre são necessárias, que abraços e olhares profundos conseguem chegar aos cantinhos mais escondidos do coração, que maior que a distância física, é a emocional. Você que me ensinou que não importa o tempo que dure o silêncio e/ou a ausência física, o sentimento permanece intocado, sagrado, imponente no altar, apenas para ser adorado e cuidado. Foi você que me ensinou a preciosidade de um segredo, de um mundo particular, construído a quatro mãos, que sempre estará ali, com as portas abertas para entrarmos e termos alguns instantes de paz.
Mesmo que me fosse possível, eu não mudaria uma vírgula de quem você é, porque você é perfeita; simplesmente perfeita, com todos os seus defeitos.



quarta-feira, 25 de maio de 2016

Crônicas do Cotidiano XV - Sobre confiança e pureza

Sabe aquele alguém com quem você sente segurança suficiente para atravessar um slackline de mãos dadas sem sentir o menor medo?
Aquela pessoa que já te viu nua – no sentido mais amplo da palavra – e não saiu correndo; consegue conviver com seus “outonos” sem se assustar com as feridas nos galhos, sem se amedrontar com seus monstros interiores nem com seus defeitos maiores e mais densos.
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Aquele ser que mesmo longe parece sentir o que se passa dentro do seu coração e quando se encontram, as palavras são totalmente desnecessárias, pois os corpos conversam entre si em perfeita sintonia; respirações descompassadas, cabeças desajustadas, anormalidades compatíveis, medos que entrelaçam as mãos.
Esse alguém é em quem você confiaria, permitiria ser tocada mesmo que toda sua pele fosse removida do corpo, deixando todas as terminações nervosas, veias e músculos expostos, pois você sabe que o toque da pessoa cura, acalma, acalenta, ajeita. Você sabe que é um toque doce, sincero; sem a menor lapidação, porém incapaz de ferir.
É aquele alguém que não saiu correndo quando você tirou a máscara que esconde sua escuridão; um alguém que entrou sem o menor medo, pelo contrário, abriu a porta da escuridão dela e também te mostrou os cantos mais empoeirados e complicados.
É a pessoa com quem você passaria todos os dias da sua vida, sabendo que a admiração, o amor, o respeito e a confiança só aumentariam a cada dia, porque foi esse ser que conheceu – e respeitou – todos os seus pontos fracos e defeitos e mesmo assim permaneceu e permanece ao seu lado, sempre com um sorriso largo e um olhar doce no rosto, sempre de braços abertos a oferecer um colo pintadinho e um abraço apertado.

É uma pessoa que te faz sentir gratidão simplesmente por poder ser exatamente quem você é e te faz sentir especial por ser merecedora de sentimentos tão brutos e puros!

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Apenas fique e continue sorrindo sem mexer a boca...

            Olhar sereno. Mente inquieta.

            Expressão impassível.

            Coração barulhento. Toque sincero.

            Sorri sem mexer a boca.

            Me conhece além do que mostro.

Me invade.

Me vira, revira, bagunça, colore.

            Me morde. Arrepio.

            Me belisca. Sorrio.

            Me beija. Aquiesço.

            Me olha. Me rouba de mim.

            Me liga. Descompasso.

            Me abraça. Dissocio.


            Me possui. Assim.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Insone

02:50. Silêncio. Ouço apenas o barulho da chuva nas telhas de zinco. Um barulho que não sabe se vai ou se fica.
Mais uma noite conforme o ritual: direita, esquerda, costas. Descubro o ombro e cubro a orelha. Descubro os pés e estico a perna. Milhares de pensamentos fazem uma verdadeira micareta em minha mente, a despeito do horário que – teoricamente – tenho que acordar. Finalmente desisto e pego o celular com a única finalidade de checar quantas horas de sono ainda me restam.
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Vejo as horas, faço as contas e vem a dúvida cruel: Durmo 4h e levanto ou fico sem dormir, mesmo?
Tento fechar os olhos e dormir. Vã tentativa...
Depois de cumprido o ritual de posições, cálculos de horas de sono e inúmeras tentativas de adormecer, me peguei refletindo a respeito da minha insônia.
Há uns anos, minhas insônias eram sempre densas, repletas de pensamentos profundos e obscuros, questionamentos absurdamente retóricos, angustiantes. Hoje, a única angústia que passa as madrugadas comigo é a de saber que tenho aula pela manhã, o que sempre foi uma verdadeira tortura, porque não importa quantas horas de sono eu tenha, antes das 10:00 sou um verdadeiro bichinho.

É muito boa a sensação de ter as rédeas da situação, saber que o problema de passar a noite em claro é exclusivamente meu.


segunda-feira, 16 de maio de 2016

Excreção

Te sinto correndo por minhas veias, como uma substância viscosa, pegajosa, nociva.
Sinto escorregar por meus tecidos, invadir minhas entranhas, confundir minhas sinapses, devorar meus pulmões.
Substância aderente, impede o funcionamento devido do meu organismo.
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Embaça minha visão, até escorrer por meus olhos em forma de lágrimas. Corrói meu estômago até sair de mim em vômito. Sufoca minha garganta, até que eu a expulse num grito.
É como heroína na seringa. A atração fatal da agulha pela veia saltando, pulsando, sendo perfurada. Você se mistura a mim, entra no meu sangue, percorre todo o meu corpo, me vicia, me torna tua escrava. Faz de mim o que bem entende, sem o menor pesar.
Pois hoje, ao descobrir que as minhas veias não são as únicas a serem perfuradas e invadidas por você, expilo-te de mim em forma de excremento, de resto, colocando-te em tua posição de inutilidade. Só sabe viciar, fazer mal, corroer, destruir, manipular.

Limite-se à tua seringa e nunca mais ouses perfurar minhas veias e me tomar novamente.


domingo, 24 de abril de 2016

TrintaUmMarçoDoisMilQuinze.

De que adianta a blusa vazia, 
A foto empoeirada, 
A música no 'repeat', 
O ícone na barra do smartphone,
A música no som de chamada, 
As lembranças inundando a mente e o coração...
...se

A blusa é vazia;
A música, um arranjo de acordes; 
A foto, bidimensional;
O ícone, quando aberto, cheio de caracteres digitados e codificados;
A chamada, um sinal de algum satélite perdido da órbita terrestre
As lembranças imateriais e distantes?

sexta-feira, 22 de abril de 2016

As Borboletas que Nunca Voam do Estômago

Certa vez, em um filme, ela ouviu algo como “os amores impossíveis são aqueles que nunca morrem”, e foi obrigada a concordar. 

Ela a escolheu. E agora?

A escolheu e nunca poderá tê-la ao alcance de suas mãos. 

Todas as relações dela sempre tiveram uma espécie de prazo de validade, aquele encantamento e nervosismo diante do encontro do outro nunca duraram mais de seis meses, e cá está ela - há mais de um ano - sentindo-se como uma adolescente a cada vez que sabe que irá encontrar a dona daqueles olhos verdes que falam tudo o que a boca cala; quando sabe que poderá jogar-se em seus braços, sentir a pele macia de seu rosto, sua respiração, puxar seus cabelos, ser presa e sofrer um ataque feroz de cócegas, morder o queixo dela só para ouvi-la gritar e fazer careta.

Os monstros eram compatíveis. As neuroses também. Os toques se encaixavam perfeitamente (e permanentemente). A compreensão fez-se uma constante. O respeito de tocar com carinho o mundo do outro sempre foi a base dessa relação meio torta e destrambelhada, que sempre as presenteia com pacotes coloridos, perfumados e repletos de bons momentos, de instantes que revigoram a alma e dão sentido até mesmo às dores, afinal, para que o encaixe fosse tão perfeito, as almas foram lapidadas, coisa que compete às adversidades da vida.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

As notas da Caixa de Pandora

Uma sequência intensa de notas em tons menores vinha da sala de estar, transbordando sentimentos que eram quase palpáveis; era possível senti-los escorrendo pelo corpo, como chuva forte caindo do céu em pingos pesados que rapidamente molham o corpo todo.
Lá estava ela... olhos fechados, janela aberta, sentindo o vento gelado de Junho acariciar sua face enquanto, como mágica, seus dedos conversavam com as teclas do piano, fazendo seus sentimentos ecoarem pela casa, reverberarem pelos cantos, penetrarem os estofados.
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A princípio tocava com delicadeza, com a timidez de alguém que começa a dizer a um estranho como se sente, o que já viveu. Aos poucos, a intimidade com o piano foi surgindo, as notas ficando mais altas e fortes. Sentimentos mais densos. Seu corpo todo movimentava-se na melodia de Beethoven's Silence, tocada com toda a melancolia que ela guardava dentro de si. Durante as pausas, prendia a respiração, retesando seu corpo. Quando voltava a tocar, sentia as lágrimas pesadas caírem de seus olhos, escorregarem por seu rosto e caírem nas teclas de seu confidente, misturando-se às pontas de seus dedos longos e frios, com unhas roídas.
Ao sentir um ínfimo raio de Sol aparecer e tocar sua pele, calmamente levantou-se, fechou o piano, respirou fundo e caminhou em direção ao quarto. Sua tristeza, suas confissões, suas notas melancólicas, suas dores pertencem somente à madrugada; sua Caixa de Pandora, que durante o dia deve permanecer fechada para que sua máscara lhe caiba e a vida lhe pareça menos amarga.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Blasé

            Naquela sala à meia luz, sentada no tapete, ao lado do cinzeiro de prata e do copo com whisky, se perdeu  nas curvas sinuosas da fumaça que tocava  seu rosto e irritava os olhos. A regravação de Feeling Good, por Avicii, ecoava por todo o ambiente, reverberava os quatro cantos de sua mente – sim, naquele momento ela se sentiu com a mente totalmente quadrada, hermeticamente fechada, sem saída, sem luz, sem ar fresco; com o mesmo cheiro de whisky, cigarro e casa fechada que estava em sua sala.

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        Flashes em câmera lenta, cenas movendo-se em sua mente na mesma velocidade e intensidade da voz pastosa do vocalista. Imagens esvanecidas, com os tons das fotografias dos anos 70. Sorrisos, abraços, brincadeiras, lágrimas, brigas, reconciliações, esperanças chocando-se com a realidade de algo doentio que há poucos dias ainda era chamado de presente.

            Retornou à realidade, pegou o copo e tomou os três dedos de whisky que encharcaram todas essas lembranças, borraram todas as imagens, deixando algo confuso, atemporal. Recolheu calmamente - com as pontas de seus dedos finos, compridos e gelados, com esmalte descascando - do tapete a bituca e jogou dentro do cinzeiro, acendeu outro cigarro, andou até a janela e pode ver os carros indo e vindo na Avenida Paulista; borrões vermelhos e brancos, na verdade, porque a miopia e o álcool levaram embora a nitidez das imagens – e dos sentimentos, também.

domingo, 17 de abril de 2016

Crônicas do Cotidiano XIV - E o amor, vó?



-Vó, a senhora acredita em amor perfeito, mesmo que esse "perfeito" seja extremamente subjetivo?


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-Ih, minha filha, já acreditei, viu? Aquela fantasia linda, de que alguém que se encaixe nas nossas expectativas, tenha as neuroses compatíveis com as nossas, nos ame incondicionalmente e tenha disposição de cuidar das feridas no nosso coração, assim, de graça, é uma invenção linda da nossa alma. O que você pode dar a sorte de encontrar na vida, e que chegará mais perto disso, será alguém que irá te oferecer a amizade mais pura possível. Fora isso, são todas idealizações nossas. Nunca haverá uma pessoa aberta a uma relação dessas, seja por quais motivos forem. Pode ser tudo perfeito, mas sempre haverá "aquele" porém, que, sendo pessoal ou consequência da vida, será como o vento, lentamente destruindo o seu castelinho de areia, construído, algumas vezes, a quatro mãos, repleto de ilusões e sentimentos em cada grão. Por isso, filha, nunca entregue seu coração em uma bandeja, nunca faça de outro coração o centro de sua vida, a razão dos seus sorrisos. O peso das suas lágrimas pode, a qualquer momento, encharcar seu coração, fazê-lo desabar no chão, na realidade, e, vá por mim, isso dói imensamente.

Cuida desse diamantezinho que você carrega aí dentro e procure não deixar que a vida o lapide demais, ele pode acabar virando um pedacinho ínfimo de algo que é tão grande e belo.