quarta-feira, 20 de abril de 2016

As notas da Caixa de Pandora

Uma sequência intensa de notas em tons menores vinha da sala de estar, transbordando sentimentos que eram quase palpáveis; era possível senti-los escorrendo pelo corpo, como chuva forte caindo do céu em pingos pesados que rapidamente molham o corpo todo.
Lá estava ela... olhos fechados, janela aberta, sentindo o vento gelado de Junho acariciar sua face enquanto, como mágica, seus dedos conversavam com as teclas do piano, fazendo seus sentimentos ecoarem pela casa, reverberarem pelos cantos, penetrarem os estofados.
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A princípio tocava com delicadeza, com a timidez de alguém que começa a dizer a um estranho como se sente, o que já viveu. Aos poucos, a intimidade com o piano foi surgindo, as notas ficando mais altas e fortes. Sentimentos mais densos. Seu corpo todo movimentava-se na melodia de Beethoven's Silence, tocada com toda a melancolia que ela guardava dentro de si. Durante as pausas, prendia a respiração, retesando seu corpo. Quando voltava a tocar, sentia as lágrimas pesadas caírem de seus olhos, escorregarem por seu rosto e caírem nas teclas de seu confidente, misturando-se às pontas de seus dedos longos e frios, com unhas roídas.
Ao sentir um ínfimo raio de Sol aparecer e tocar sua pele, calmamente levantou-se, fechou o piano, respirou fundo e caminhou em direção ao quarto. Sua tristeza, suas confissões, suas notas melancólicas, suas dores pertencem somente à madrugada; sua Caixa de Pandora, que durante o dia deve permanecer fechada para que sua máscara lhe caiba e a vida lhe pareça menos amarga.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Blasé

            Naquela sala à meia luz, sentada no tapete, ao lado do cinzeiro de prata e do copo com whisky, se perdeu  nas curvas sinuosas da fumaça que tocava  seu rosto e irritava os olhos. A regravação de Feeling Good, por Avicii, ecoava por todo o ambiente, reverberava os quatro cantos de sua mente – sim, naquele momento ela se sentiu com a mente totalmente quadrada, hermeticamente fechada, sem saída, sem luz, sem ar fresco; com o mesmo cheiro de whisky, cigarro e casa fechada que estava em sua sala.

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        Flashes em câmera lenta, cenas movendo-se em sua mente na mesma velocidade e intensidade da voz pastosa do vocalista. Imagens esvanecidas, com os tons das fotografias dos anos 70. Sorrisos, abraços, brincadeiras, lágrimas, brigas, reconciliações, esperanças chocando-se com a realidade de algo doentio que há poucos dias ainda era chamado de presente.

            Retornou à realidade, pegou o copo e tomou os três dedos de whisky que encharcaram todas essas lembranças, borraram todas as imagens, deixando algo confuso, atemporal. Recolheu calmamente - com as pontas de seus dedos finos, compridos e gelados, com esmalte descascando - do tapete a bituca e jogou dentro do cinzeiro, acendeu outro cigarro, andou até a janela e pode ver os carros indo e vindo na Avenida Paulista; borrões vermelhos e brancos, na verdade, porque a miopia e o álcool levaram embora a nitidez das imagens – e dos sentimentos, também.

domingo, 17 de abril de 2016

Crônicas do Cotidiano XIV - E o amor, vó?



-Vó, a senhora acredita em amor perfeito, mesmo que esse "perfeito" seja extremamente subjetivo?


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-Ih, minha filha, já acreditei, viu? Aquela fantasia linda, de que alguém que se encaixe nas nossas expectativas, tenha as neuroses compatíveis com as nossas, nos ame incondicionalmente e tenha disposição de cuidar das feridas no nosso coração, assim, de graça, é uma invenção linda da nossa alma. O que você pode dar a sorte de encontrar na vida, e que chegará mais perto disso, será alguém que irá te oferecer a amizade mais pura possível. Fora isso, são todas idealizações nossas. Nunca haverá uma pessoa aberta a uma relação dessas, seja por quais motivos forem. Pode ser tudo perfeito, mas sempre haverá "aquele" porém, que, sendo pessoal ou consequência da vida, será como o vento, lentamente destruindo o seu castelinho de areia, construído, algumas vezes, a quatro mãos, repleto de ilusões e sentimentos em cada grão. Por isso, filha, nunca entregue seu coração em uma bandeja, nunca faça de outro coração o centro de sua vida, a razão dos seus sorrisos. O peso das suas lágrimas pode, a qualquer momento, encharcar seu coração, fazê-lo desabar no chão, na realidade, e, vá por mim, isso dói imensamente.

Cuida desse diamantezinho que você carrega aí dentro e procure não deixar que a vida o lapide demais, ele pode acabar virando um pedacinho ínfimo de algo que é tão grande e belo.

domingo, 6 de março de 2016

Crônicas do Cotidiano XIII - Tempo e Vida

            Passam as horas, as pessoas, os dias, as semanas, os meses, os anos, as palavras, as oportunidades, as ideias. O que ontem era silêncio, hoje é explicação. O que hoje é grosseria, amanhã será compreensão. O silêncio que poupa, é o mesmo que exaspera. A omissão que deixa a resposta subentendida, é a mesma que dá asas à imaginação – quase sempre para o lado mau. A boca que “morde”, é a mesma que “assopra”.

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            O tempo. Ah, o tempo... Ele passa, atropela, esmaga, adormece, leva embora sentimentos e lembranças, traz à tona situações e explicações. Ele nunca se ajusta ao nosso tempo. É senhor de si, dono das respostas e das dúvidas, dos punhais e das pétalas. Creio que se o tempo tivesse signo, seria capricorniano.


            No meio desses furacões compostos pela vida em si, servidos em bandejas de ouro pelo tempo e lentamente degustados pelos nossos sentimentos, creio que só nos caiba resiliência e compreensão. O tempo não pára para amarrarmos os cadarços que a vida desamarrou. A vida não tem cuidado com o que irá nos trazer e com o tempo que levará para ferir ou cicatrizar.

terça-feira, 1 de março de 2016

Não demora?

Fica comigo até eu dormir
Segura minha mão até ela esquentar
Me abraça até meu coração se acalmar
Me faz cafuné até eu "ronronar"
Me faz cócegas até eu perder o ar

Repara em mim
Me cuida
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Diz que sou especial e diferente
Me dá uma florzinha roubada da rua
Coloca um anel no meu dedo, mais um travesseiro na minha cama e mais um par de sapatos jogados na sala
Apresenta tuas imperfeições e limitações aos meus monstrinhos internos
Me traz chocolate, beijo na teste um abraço sem data

Me dá a segurança de poder amar e ser amada, cuidar e ser cuidada, ver e ser vista, ouvir e ser escutada, encantar e ser encantada.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Crônicas do Cotidiano XII - "Rompendo" amarras?

É (negativamente) incrível como a nossa atual sociedade quer nos ensinar a abrir mão da nossa própria subjetividade. São “dicas” de comportamento, relacionamento, sexo, alimentação, criação e educação de filho, vestuário, cabelos, etc. É como se fossemos, a todo instante, persuadidos a existirmos feito robôs fabricados em série, desprovidos de qualquer tipo de peculiaridade comportamental e existencial. Até mesmo aqueles que querem fugir dos padrões, acabam sendo catalogados, carimbados e etiquetados. Tudo aquilo que foge ao dito “normal”, é doença, transtorno, distúrbio, tem mil medicações, dicas, regras. Isso quando não acaba sendo gourmetizado, “cool”.

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A humanidade lutou – e luta – tanto para conseguir a liberdade, mas será que essa liberdade é real? Até onde aquela crise dos ideais românticos e do surgimento do Regime Disciplinar está se repetindo na nossa sociedade? Até onde o “normal” é desprovido de interesses mercadológicos? Pensamos que somos livres, que mandamos em nossos próprios narizes e que nossas escolhas são feitas única e exclusivamente com base no que desejamos, mas em qualquer canto há uma câmera nos vigiando (em nome da "segurança", claro!), alguém nos apontando e comentando, algum ouvido registrando nossos ruídos; se não seguirmos as infinitas cartilhas comportamentais e emocionais, não somos dignos de aceitação; se seguimos o que queremos, somos classificados e encaixotados do mesmo jeito. E pior ainda: quando seguimos as normas e acabamos rompendo com os padrões, somos duplamente desclassificados, julgados e classificados, como se fossemos verdadeiros traidores.

Creio que a morada da verdadeira liberdade seja dentro de nossas mentes e de nossos corações, onde câmera nenhuma enxerga, onde ouvido nenhum escuta, onde limites não habitam. E essa liberdade só passa a existir genuinamente a partir do momento em que tomamos consciência do verdadeiro significado da palavra Liberdade, que não significa passar por cima dos outros feito tratores egoístas e ambiciosos (o nome disso é falta de respeito ou defesa); para que ela exista, é necessária a consciência do respeito, do altruísmo, compaixão, igualdade; a partir daí, nos damos conta de que realmente somos todos iguais, suscetíveis aos mesmos fenômenos, temos as mesmas necessidades básicas, todos temos nossos monstrinhos internos, nossos pensamentos inescrupulosos, nossos desejos transgressores, e a única coisa que diferencia o que a sociedade chama de “loucos e normais” é a coragem que alguns têm em simplesmente optarem por não vestir a máscara antes de sair de casa (lógico, exceto em casos de patologias). Tal consciência, faz com que, dispondo da liberdade, não ultrapassemos os limites existenciais dos demais nem abramos mão de nossa própria existência em função do “encaixe” na “normalidade”.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Crônicas do Cotidiano XI - E se?

            Se você estiver com o coração fechado e se pegar pensando: “pode aparecer o amor da minha vida e eu perder a oportunidade”, saiba que não perderá. Primeiro, porque você vai saber que é o amor da sua vida; segundo, ele vai saber esperar o seu momento de se abrir; terceiro, ele não vai te ferir; quarto, se ele for embora, deixe, não merecia ficar. Automaticamente, quando algo não ameaça, não faz sentido proteger-se.


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Não importa se é inverno ou verão, fevereiro ou dezembro, dia das crianças, carnaval, pascoa, não importa a data, não importa se são 6 da tarde, 2 da manhã ou 8 da noite. O amor vai bater à sua porta e você vai abrir porque você vai saber, pelo sorriso e olhar da pessoa, que é aquele reencontro tão esperado, sem que você tenha de estar preparada para isso, porque quando esse alguém chegar, ele vai te entender, te aceitar, vai te amar como você é, terá paciência com suas fraquezas e incapacidades, te dará a mão e guiará, ao invés de criticar, aprenderá a rir dos seus monstros internos, te fará ter leveza  mesmo em situações complicadas, portanto não há mal nenhum em viver com o coração trancafiado. Aliás, nos tempos de hoje, é o melhor a ser feito, porque quem realmente merecer estar dentro dele, chegará à sua vida com a chave certa para abrir todos os cadeados e saberá retirar todas as correntes.